Produzir mais, emitir menos: Programa Rural Sustentável transforma 10 anos de experiência em lições para agricultura de baixo carbono

Financiado pelo Governo do Reino Unido, a iniciativa reuniu governos, produtores, assistência técnica e organizações da sociedade civil para consolidar aprendizados de atuação em quatro biomas

Em um país onde a produção agropecuária, a conservação ambiental e a crise climática estão cada vez mais conectadas, uma iniciativa de cooperação internacional chega a mais de 10 anos reunindo resultados e aprendizados para a agricultura de baixa emissão de carbono. Nos dias 28 e 29 de maio de 2026, representantes de governos, produtores rurais, organizações socioprodutivas, empresas de assistência técnica, instituições executoras, pesquisadores e membros da cooperação internacional se reuniram em Brasília para consolidar as lições aprendidas pelo Programa Rural Sustentável (PRS).

Promovido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o evento “Programa Rural Sustentável: lições aprendidas em mais de 10 anos de implementação” teve como objetivo transformar a experiência acumulada pelo Programa em subsídios para futuras políticas públicas e novas iniciativas de desenvolvimento rural sustentável. Ao longo de mais de uma década, o PRS demonstrou, na prática, como políticas públicas, financiamento climático, assistência técnica, pesquisa, organizações locais e produtores rurais podem atuar de forma integrada para fortalecer uma produção mais sustentável, resiliente e alinhada aos desafios climáticos.

Financiado pelo Governo do Reino Unido, o PRS destinou 70 milhões de dólares à transição de baixo carbono na agricultura brasileira. Ao longo de sua trajetória, atuou em 252 municípios, em uma área de 1,7 milhão de km² — o equivalente a 21% do território nacional. Para dimensionar esse alcance, é como se o Programa tivesse atuado em uma área do tamanho de Portugal, Espanha, França, Itália, Suíça, Grécia e Bélgica juntos.

“Para o Reino Unido, agricultura sustentável e sistemas alimentares são uma prioridade. Entendemos que é um assunto global, então precisa existir uma cooperação internacional para conseguir atingir uma guinada no cultivo e produção sustentável. O Reino Unido tem uma firme e longa parceria com Brasil, e o trabalho com o Rural Sustentável está demonstrando como as parcerias bilaterais podem beneficiar em termos de evidências, entrega real e impacto nas comunidades do território”, relata Hannah Ashley, representante do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (DEFRA). 

Os números também ajudam a traduzir a escala dos resultados: mais de 60 mil pessoas beneficiadas e mais de 120 mil hectares manejados de forma sustentável — área equivalente a aproximadamente 143 mil campos de futebol —, contribuindo para a redução das emissões de gases de efeito estufa, a prevenção do desmatamento e a promoção de práticas produtivas mais sustentáveis.

Também entraram na pauta a disseminação dessas práticas em futuros projetos e políticas públicas, a parceria com o Reino Unido e os próximos passos da cooperação internacional. O tema contou com a participação de Graham Knight, Conselheiro de Clima, Natureza e Energia na Embaixada Britânica em Brasília e Hannah Ashley, representante do DEFRA, que integraram o momento de considerações finais ao lado do Vice-Ministro e Secretário do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Cleber Oliveira Soares, e da Chefe da Representação do Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no Brasil, Annette Killmer.

[Os impactos do Programa Rural Sustentável] representam o resultado da dedicação e do investimento das comunidades — mas ainda falta muito a se fazer. Através da nossa parceria climática com o Brasil, vamos focar na produção de fertilizantes sustentáveis, na bioeconomia, na agricultura sustentável, para acelerar essa transição para, também, uma economia mais sustentável”, diz Graham Knight, Conselheiro de Clima, Natureza e Energia na Embaixada Britânica em Brasília.

Mais do que celebrar esses resultados, o encontro buscou responder a uma pergunta central para a agenda rural e climática do país: o que a experiência do PRS pode ensinar para ampliar a agricultura de baixa emissão de carbono no Brasil?

A resposta foi construída de forma coletiva. A programação combinou painéis temáticos e workshops participativos. Ao longo dos dois dias, os debates abordaram temas diretamente ligados aos desafios de levar práticas sustentáveis para a realidade do campo: o papel da assistência técnica e extensão rural na adoção de tecnologias de baixa emissão, o fortalecimento de organizações socioprodutivas, o acesso a políticas públicas e instrumentos de inclusão produtiva — como crédito rural, Cadastro Ambiental Rural (CAR) e Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) — e a viabilidade técnica e financeira da agricultura de baixo carbono para pequenos e médios produtores.

Evento de celebração dos mais de 10 anos do Programa Rural Sustentável

Atuação em quatro biomas brasileiros

A atuação do PRS atravessa quatro biomas brasileiros — Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica — com estratégias adaptadas aos diferentes contextos produtivos, sociais e ambientais. A governança atua em torno de uma agenda comum: promover sistemas produtivos mais sustentáveis, resilientes e alinhados aos desafios climáticos. A experiência também dialoga com políticas públicas brasileiras, especialmente o Plano ABC+, voltado à adaptação à mudança do clima e à baixa emissão de carbono na agropecuária.

Para o Vice-Ministro e Secretário do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Cleber Oliveira Soares, com os  sistemas sustentáveis, “o produtor se beneficia na ponta: é economia de insumo, redução de preço, aumento das suas margens [de lucro], incorporação de, por exemplo, créditos de carbono derivado desse sistema de manejo, agregação de valor ao seu sistema de produção, diversificação da sua base produtiva e muitos outros. Consequentemente, a sociedade se beneficia ao consumir esse alimento seguro, sustentável e produzido de forma resiliente — e a humanidade também, ao mitigar a emissão de gases de efeito estufa por produzir melhor em uma área menor”, conta o Vice-Ministro.

No Cerrado, o Programa apoiou a implementação de 300 mil hectares com tecnologias de baixa emissão de carbono, 3 mil Unidades Multiplicadoras, 170 Unidades Demonstrativas, 20 organizações socioprodutivas fortalecidas e 33 pesquisas. As ações envolveram práticas como recuperação de pastagens degradadas, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta, capacitação, acesso a crédito e fortalecimento da assistência técnica.

Comemorado em 15 de outubro, o Dia Internacional das Mulheres Rurais foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para valorizar o papel das trabalhadoras do campo. A data busca conscientizar a sociedade sobre a importância dessas mulheres na segurança alimentar, no desenvolvimento sustentável e na manutenção da diversidade de vida no planeta, em especial nos biomas brasileiros.

Para transformar esse reconhecimento em prática, o Programa Rural Sustentável implementa, no Cerrado e na Amazônia, estratégias adaptadas à realidade de cada bioma. O foco é fortalecer a autonomia financeira das mulheres rurais, ampliando sua representatividade no campo e aliada a conservação da floresta.

Atualmente, são mais de 1.500 beneficiárias no Projeto Rural Sustentável – Cerrado e no Projeto Rural Sustentável – Amazônia, incluindo agricultoras, produtoras e agroextrativistas ligadas às organizações socioprodutivas. Neste contexto, todas se tornam pilares da sustentabilidade ao criarem um ambiente de aprendizado, escuta ativa e com olhares atentos às necessidades do campo.

Dona Maria José, assentada e participante do PRS-Cerrado

Dona Maria José, assentada e participante do PRS-Cerrado, conta que passou mais de 10 anos no Cerrado produzindo apenas leite, mas com dificuldade de plantar. “Foi aí que apareceu o PRS na nossa vida. Foi onde acrescentou os conhecimentos, como proteger e produzir”, ela relembra. “Aprendemos a lidar com o solo. A ver o que o solo precisa, o que ele pode dar para a gente e, depois dessa análise e de corrigir o solo, oferecer para ele o que é necessário para produzir melhor”.

Na Amazônia, o PRS atua no fortalecimento de cadeias produtivas da sociobiodiversidade, como açaí, cacau, castanha-do-Brasil, pirarucu de manejo, café robusta e peixes redondos. A iniciativa envolve mais de 30 Organizações Socioprodutivas e cerca de 1.400 famílias, com foco em geração de renda, conservação ambiental e fortalecimento de coletivos produtivos e agroextrativistas, incluindo povos e comunidades tradicionais, mulheres e jovens.

Amauri Guedes, participante do PRS-Amazônia na cadeia produtiva de peixes redondos

Com a entrada do PRS, Amauri Guedes, participante do PRS-Amazônia na cadeia produtiva de peixes redondos, relata que já foi feito o planejamento para a próxima década, trabalhando sucessos e aprendizados. “O que vai ficar para a gente é o conhecimento e a solidez desse conhecimento. Hoje nós conseguimos colocar nossa diretoria pária entre homens e mulheres, com a participação de jovens. Sem contar que nós fechamos negócios a partir da entrada do PRS. Nós já vendemos peixe com valor agregado, negociados pelos integrantes do PRS-Amazônia”, ele conta. “O que o produtor quer na verdade é que seus produtos cheguem em algum lugar, que chegue alguma renda. O produtor vive de esperanças, de sonhos… ele quer permanecer lá [no seu território], mas ele quer permanecer ganhando qualidade de vida”, Amauri finaliza.

Na Caatinga, o Programa chegou a mais de 1.500 famílias em 31 municípios, em parceria com 20 Arranjos Produtivos Locais, distribuídos por Alagoas, Bahia, Pernambuco, Piauí e Sergipe. A atuação combinou tecnologias agrícolas de baixa emissão de carbono com tecnologias sociais de convivência com o semiárido, valorizando segurança alimentar, geração de renda, conservação ambiental e saberes locais.

Na primeira fase, desenvolvida na Amazônia e na Mata Atlântica até 2019, o PRS beneficiou cerca de 4 mil produtores em 70 municípios, com mais de 46 mil hectares de terra com desmatamento e degradação evitados e mais de 30 mil participantes em ações de capacitação. Essa experiência inicial ajudou a orientar a expansão do Programa para novos territórios e biomas.

Do território à política pública

O Programa Rural Sustentável é financiado pelo Governo do Reino Unido e gerido por Cooperação Técnica aprovada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), tendo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) como beneficiário institucional. Nos biomas Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica, o Programa foi executado e administrado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS). Na Caatinga, a execução ficou a cargo da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).

Essa governança reuniu cooperação internacional, governo brasileiro, instituições executoras, organizações locais, assistência técnica, pesquisa e produtores rurais em torno de uma agenda comum: promover sistemas produtivos mais sustentáveis, resilientes e alinhados aos desafios climáticos. A experiência também dialoga com políticas públicas brasileiras, especialmente o Plano ABC+, voltado à adaptação à mudança do clima e à baixa emissão de carbono na agropecuária.

“Para nós, é tão importante entender essa dimensão e as nuances de como um Programa como esse pode beneficiar famílias, que muitas vezes estão em locais remotos, com baixa renda. E como essas mudanças têm um impacto tão grande. Enquanto pequenos produtores – assim como no Reino Unido – entendo que existem dificuldades em ter suporte, acessar crédito, receber assistência técnica — ações que o Programa tem viabilizado com sucesso. Nós vamos levar essas lições de volta ao Reino Unido para nos ajudar a influenciar futuras políticas públicas e esperamos que aqui tenha um impacto parecido”, finaliza Hannah. 

As contribuições recolhidas durante o evento serão sistematizadas como parte do processo de consolidação das lições aprendidas do Programa: como produzir alimentos, gerar renda, conservar florestas e reduzir emissões em diferentes realidades territoriais. A expectativa é que esse material apoie novas estratégias para ampliar práticas produtivas sustentáveis, fortalecer políticas públicas e orientar futuras iniciativas de cooperação voltadas ao desenvolvimento rural sustentável no Brasil.

Cerimônia de celebração

Uma cerimônia especial em comemoração da data aconteceu no encerramento do evento. Beneficiários do Programa Rural Sustentável e representantes de organizações de produtores participaram do momento, compartilhando depoimentos sobre suas trajetórias e resultados alcançados ao longo dos 10 anos de atuação conjunta. 

Estiveram presentes para compartilhar seus relatos: Jiovana Luneli, da Fundação Viver, Produzir e Preservar, Francisco Fernandes Bernardes, na Ekocap Consultoria & Auditoria, Lucineia de Jesus Domingos Gabelão, da Associação da Comunidade Negra Rural Quilombola Chácara do Buriti, Nedino José Araújo, da Associação de Desenvolvimento Comunitário dos Produtores do Assentamento Carlos Roberto Soares de Melo, Salvador Gomes de Miranda, da AUCINIRC, Ediana Capich, da LACOOP, e Mariele Goes Santos, da AMARQUISI.

Histórias como a deles também são contadas no vídeo comemorativo elaborado em homenagem ao marco. Ele mostra os impactos deixados pelo Programa nas áreas por onde passou, em números alcançados, casos de sucesso, e experiências dos produtores beneficiados. 

Confira alguns registros 

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