No entorno do Corredor Ecológico Gurupi, entre os estados do Maranhão e Pará, o Projeto Corredor de Biodiversidade da Amazônia conclui sua missão deixando como legado 17 organizações comunitárias fortalecidas, mais de 1400 pessoas retiradas da linha da pobreza e áreas em processo de restauração florestal. Iniciado em 2023 pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS), em parceria com Suzano e Sofidel, e com apoio da Amazon Onlus, o projeto nasceu com o propósito de promover a conservação da biodiversidade amazônica e ao mesmo tempo fortalecer a geração de renda e segurança alimentar de centenas de famílias da região.
Entre o Cerrado e a Amazônia, nasce o Projeto Corredor de Biodiversidade da Amazônia (2023-2026)
Na transição entre o Cerrado e a Amazônia, considerada a maior zona de encontro entre savana e floresta do planeta – segundo dados do IPAM e da WWF, 2019 – a paisagem se mistura aos modos de vida de povos e comunidades que há gerações mantêm uma relação profunda com a floresta. De um lado, o Cerrado abriga milhares de espécies de árvores e 8 das 12 principais bacias hidrográficas do país. Do outro, a Amazônia configura a maior floresta tropical e também a mais biodiversa do planeta.
Mas, para além de toda a riqueza natural, a região convive com fortes pressões sociais e ambientais, marcada pelo desmatamento predatório, exploração madeireira ilegal e outras atividades que ameaçam a biodiversidade da floresta e quem vive dela – segundo o artigo Corredor Etnoecológico da Amazônia Maranhense: conectando áreas protegidas do Mosaico Gurupi, 2018.
É nesse contexto que nasce, em 2023, o Projeto Corredor de Biodiversidade da Amazônia, desenvolvido para incentivar a conservação da biodiversidade local aliada à segurança alimentar e a geração de renda no território. Atuando em municípios do Maranhão e do Pará, a iniciativa buscou fortalecer famílias em assentamentos da reforma agrária, com a implantação de quintais agroflorestais, viveiros e casa de farinha, para a subsistência e inserção de produtos da sociobiodiversidade em mercados.
Segundo o coordenador operacional, Luis Alejarra, o Projeto buscou ser uma resposta às atividades ilegais de desmatamento e as vulnerabilidades sociais presentes na região. “O Projeto teve como maior propósito a restauração desse corredor de biodiversidade da Amazônia. São 300 km de restauração, sem contar que em todo esse trajeto, a gente atendeu as comunidades, tanto gerando soberania alimentar, com os quintais produtivos, quanto à saída da linha da pobreza, com incremento de renda oriundo dos quintais e de negócios gerados”, destaca.
Uma das centenas de pessoas beneficiadas diretamente foi a Fernanda Batista, do Assentamento Monte Alegre, de Itinga do Maranhão. Ela relata um pouco da sua experiência. “Hoje, nossa comunidade está mais disposta a investir na produção de alimentos. Abrimos portas para novos saberes e novas formas de cultivo trazidas através do Projeto. Participamos de feiras no município e geramos pequenas rendas aqui na associação, fruto dos quintais que foram implantados. Estamos agora na expectativa da primeira produção da agrofloresta”, compartilha.
Segundo o coordenador, as atividades foram implementadas a partir de quatro eixos principais: o fortalecimento institucional das organizações locais; promoção da soberania alimentar e nutricional por meio dos quintais produtivos; geração de renda com apoio à organização, beneficiamento e comercialização da produção comunitária; e a conservação das Áreas de Preservação Permanente (APP) e de Reserva Legal (RL).
Confira os resultados das ações em campo
- 17 OSPs fortalecidas;
- 1.418 pessoas retiradas da pobreza;
- 150 quintais produtivos implantados;
- 6 cadeias de valor fortalecidas: farinha de mandioca, polpa de frutas, óleos essenciais de espécies nativas, mel, ovos e artesanato;
- 2 viveiros implantados;
- ATER ampliada;
- 4 marcas locais construídas;
- Infraestrutura produtiva consolidada;
- 300 ha em restauração.
Da escuta ao fortalecimento das comunidades locais
O ponto de partida do Projeto foi o fortalecimento das 17 Organizações Socioprodutivas (OSPs) parceiras, partindo do princípio de que o desenvolvimento da região começa com organizações mais preparadas e engajadas para acessar futuras oportunidades. Para isso, foi realizado um diagnóstico organizacional com foco em identificar regularidades documentais, legitimidade das lideranças, participação de mulheres e jovens e capacidade de gestão.
A partir disso, foram construídos planos de formação em parceria com o SEBRAE, abordando temas como cooperativismo, associativismo e gestão de empreendimentos comunitários voltadas às necessidades das organizações atendidas. Já para aquelas localizadas em territórios distantes e de difícil acesso, foram formados 15 agentes multiplicadores, para apoiar na mobilização e no compartilhamento do conhecimento.
O Projeto também olhou com atenção para a segurança alimentar nas comunidades, a partir de uma escuta atenta ao dia a dia das famílias, que resultou na implantação de 150 quintais produtivos e na diversificação da produção para melhoria da alimentação, saúde e renda. A beneficiária Zinalda Caetano, da Associação dos Trabalhadores Rurais Monte Alegre, de Itinga do Maranhão (MA), compartilha emocionada os frutos de sua participação. “Nos foi proposto participar do Projeto recebendo os quintais produtivos e, posteriormente, recebemos uma agrofloresta. Além dos frutos e alimentos físicos, que contribuíram muito na melhoria alimentar, os quintais produtivos nos permitiram um lugar na feira local, ajudando na renda familiar. O Projeto nos mostrou outra forma de produzir”, destaca.
Além dos quintais produtivos, foram implantados 45 Sistemas Agroflorestais (SAFs) nas comunidades atendidas. Juntas, as duas atividades contribuem diretamente para a conservação ambiental ao incentivar o uso sustentável da terra e promover a recuperação de áreas degradadas e manutenção da biodiversidade local.
Já no assentamento São Jorge, em Cidelândia (MA), a entrega da Casa de Farinha São Raimundo marcou uma nova etapa para toda a comunidade e municípios próximos. A agroindústria funciona como espaço coletivo para o beneficiamento da mandioca, atividade que faz parte da identidade cultural dos povos que ali residem, e que, agora, conta com equipamentos de beneficiamento, forno e área para a produção de farinha de puba e farinha fina.
Segundo os beneficiários, a cadeia produtiva da farinha representa fonte de sustento e senso de comunidade – ainda mais fortalecido com a inauguração da agroindústria, como conta o beneficiário Romário Dias, da OSP ASPRA-JORGE. “Um dos grandes legados do Projeto foi a casa de farinha, que veio para resgatar uma cultura que já estava bem escassa. Antes a produção era pouca e concentrada em uma só família, hoje muitas voltaram a plantar mandioca. Sem contar com os SAFs que têm beneficiado 52 famílias”, compartilha.
Já na Colônia Sapucaia, em Ulianópolis (PA), a instalação de uma unidade de desidratação de frutas abriu novas possibilidades para o aproveitamento da produção. Além da estrutura, as famílias responsáveis pela gestão do espaço participaram de capacitações voltadas à produção de frutas desidratadas como foco na comercialização em feiras e mercados especializados. Com uma produção média mensal de 25 Kg, a unidade já contribui para a geração de renda de três famílias da comunidade.
Segundo a Coordenadora de campo Rafaela Andrade, o diferencial do Projeto é que os resultados dos três anos estão refletindo diretamente na vida das famílias atendidas. “Os frutos foram muito positivos, tanto para mim quanto para as comunidades. O Projeto proporcionou aprendizado, troca de conhecimentos e melhoria na produção das famílias. Além disso, ajudou muitas pessoas a terem acesso a alimentos variados e produção sustentável em áreas pequenas”, compartilha.
Ao longo do seu período de execução, o Corredor de Biodiversidade da Amazônia buscou se adaptar à realidade de cada OSP e municípios, entendendo suas dinâmicas, desafios e formas de organização. A diversidade social, cultural e institucional das organizações tornou necessária a implementação de estratégias construídas lado a lado com as comunidades, respeitando suas necessidades, tempos e anseios, para a construção conjunta de caminhos sustentáveis e mais prósperos para a região.
Veja mais momentos desses três anos de Projeto





